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ÉTICA: CAMINHO PARA A LIBERDADE

Publicado em 14/12/2011 19:38 e Atualizado em: 14/12/2011 20:07

Duas meninas, irmãs gêmeas de 12 anos, vão pela primeira vez de ônibus para a escola.

 

Dias antes, a mãe mostra a elas todos os detalhes que precisavam saber para terem sucesso nesta nova aventura em suas vidas, cheia de riscos, mas também repleta de liberdade.

 

Só que no dia da “estreia” algo dá errado. As horas passam e as meninas não chegam. A mãe em casa espera apreensiva. Talvez, até se arrependa pela ousadia de deixar as filhas andarem sozinhas de ônibus, ou mesmo se culpe por ter sido “otimista demais” e não ter dado a elas ao menos um celular para comunicarem-se.

 

E justamente é o telefone que toca.

 

Um homem quer falar com algum responsável por duas crianças cuja descrição bate exatamente com a das meninas. Ele pergunta se há alguém que as conhece naquele endereço. A mãe então diz quem é e pede, ansiosíssima, por notícias das filhas. Trata-se de uma situação que deixaria qualquer um de nós em pleno desespero.

 

Mas o homem a tranquiliza: ele é o motorista do ônibus que as levaria para casa. As meninas perderam o local em que teriam de descer e já estavam no ponto final. E aquele bom homem, mesmo tendo horário para sair novamente, assegura à mãe que ela poderia vir tranquilamente pegar suas filhas porque ele não sairia dali enquanto não chegasse, e cuidaria das crianças até as entregar em segurança em suas mãos.

 

-- Mas que sorte elas terem pegado um ônibus com um motorista tão bom e cuidadoso!

-- Não. Não é sorte: lá todos são assim. Todo mundo cuida de qualquer criança como se fossem seus próprios filhos.

 

Esta história, com um belo final feliz, não é uma açucarada narrativa de ficção, ou algo que teria acontecido em uma pacata cidade do interior ou em um rico país europeu. Trata-se de um fato recente e real, contado por uma amiga minha muito querida, e ocorrida em uma cidade latino-americana, com quase dois milhões de habitantes. Falo de Montevidéu, capital de nosso vizinho Uruguai.

 

E o que a aventura de duas jovens uruguaias, sua mãe e um motorista tem a ver conosco, moradores desta Belo Horizonte de quase 2 milhões e meio de habitantes?

 

O que este simples motorista nos ensinou é que quanto maior for o respeito que tivermos um pelo outro, quanto maior for o cuidado que dedicarmos a pessoas que nem conhecemos, maior será a liberdade de cada um de nós. Por que liberdade? Porque veja: graças ao fato de que “lá todos todos são assim” é que aquela mãe sentiu-se suficientemente segura em dar a suas filhas a oportunidade de andarem livres pelas ruas da grande cidade.

 

Em resumo: é do respeito que se constrói o Direito, pois Direito é acima de tudo um projeto de liberdade.

 

Para ficar mais claro o que estou dizendo, vamos pensar em três exemplos da relação entre respeito, liberdade e Direito:

 

Exemplo 1:Você anda pelas ruas de Belo Horizonte e quando pisa em uma faixa de pedestres já percebe os carros parando e os motoristas preocupados em respeitar seu direito de andar livremente e em segurança.

 

Exemplo 2: Você vai a uma loja e compra um produto. Chega em casa e percebe que há algo errado com ele e que vai ter que voltar à loja. Mas não há qualquer preocupação quanto a isso pois você sabe que quando voltar lá, mesmo que já tiver passado o prazo previsto em lei, o lojista vai lhe receber tão bem (ou ainda melhor) que na hora da venda, e vai estar preocupado em saber se você quer o seu dinheiro de volta ou se vai confiar em levar um outro produto igual para casa.

 

Exemplo 3: Por último, imagine-se como empregado sentido-se completamente respeitado, não só porque seu patrão lhe paga corretamente suas horas-extras, décimo-terceiro e férias, mas também porque você sabe que ele lhe vê e respeita como um profissional, ou seja uma pessoa importante não só para a empresa mas para toda a sociedade, já que não importa se você trabalha com uma caneta na mão ou com uma vassoura, num banco ou em uma padaria, ele sabe que de seu serviço bem prestado todos se beneficiam.

 

Bom, é claro que na maioria das vezes pensar em situações como estas infelizmente ainda é o mesmo que sonhar com um mundo cor-de-rosa de contos de fadas. Mas reflita: se cada um de nós cultivar o respeito e o cuidado com os outros, logo estaremos em uma cidade onde as crianças poderão andar muito mais livremente pelas ruas sem a preocupação de serem assassinadas pelos automóveis; as pessoas se sentirão muito mais livres para comprar, pois estarão seguras em serem amparadas se algo der errado; e todos nós seremos presenteados com profissionais bons e dignos, conscientes de que fazem o que fazem não só por um salário, mas pelo progresso de suas empresas e da sociedade como um todo.

 

Mas podemos pensar – com razão – que os pedestres muitas vezes também abusam em atravessar a rua em qualquer lugar, sem respeitar as mínimas noções de segurança no trânsito; ou que há muitos consumidores que, se puderem, “passam a perna” em lojistas e prestadores de serviço para conseguirem vantagens praticamente ridículas; ou ainda que os empregados de hoje em dia pensam somente em receber seu dinheiro no fim do mês e nunca em se dedicar ao progresso da empresa, quanto mais da importância que seu trabalho tem para toda a sociedade.

 

Tudo isto é pura verdade e só mostra que não dá para ficar apontando o dedo para o outro, pois liberdade e democracia são produtos de todos e se baseiam não só em governos ou voto, mas principalmente na honra nossa de cada dia. Pois é: todos nós temos muito a fazer e a aprender.

 

Sem bons empregados não existirão bons patrões, mas sem bons patrões dificilmente teremos empregados honrados; sem a honestidade de todos nos negócios, não teremos um comércio justo para lojistas e consumidores; e sem que pratiquemos a gentileza e a paciência nas ruas, seja com os pés no chão ou com as mãos no volante, não tem como existir um trânsito humano e não-violento para todos nós.

 

Enfim, o respeito, a ética e a honestidade que cultivarmos hoje logo irá retornar a todos na forma de liberdade e segurança.

 

Acredito que nada disso é utopia, mas um processo histórico de todos os povos na conquista da verdadeira Democracia e na construção efetiva do Direito.

 

Um povo formado de pessoas que se respeitam certamente aprendeu em algum momento de sua história o quanto a liberdade é importante e o quanto ela é frágil e precisa ser trabalhada todos os dias, por todas as pessoas, nas mais pequenas atitudes.

 

Nós brasileiros não temos nem míseros 50 anos em toda a nossa história de democracia minimamente legítima e real. E é certo que o tempo que passamos debaixo de ditaduras e nas mãos de governos que achavam que eles (e não nós) resolveriam todos os problemas não ajudou em nada a nos desenvolvermos.

 

Só que hoje estamos passando pelo ciclo mais bem sucedido destas garantias, e por isso é possível mesmo acreditar que cada vez mais pessoas verão a honestidade, a honradez e a ética não só como belas palavras ou teorias de idealistas, mas também como o caminho mais prático e seguro para se viver bem melhor.

 

Acredito que logo poderemos dizer, como a mãe uruguaia, que gestos de cuidado e respeito como os daquele motorista de ônibus não são exceção ou “sorte”, mas que em geral todos nós aqui “somos assim”.

 

Agradeço a Deus por ser advogado e por ser esta a profissão que tem, por excelência, a honra, o respeito e a liberdade como matéria-prima.

"A cidadania não é atitude passiva, mas ação permanente, em favor da comunidade." Tancredo Neves